TI não é só Tecnologia

A verdade é que usamos de forma errada os termos TI (Tecnologia de Informação) e SI (Sistemas de Informação).

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Novembro de 2015 Edição do Mês
Libânia de Alvarenga Paes

Coordenadora do Curso de Especialização em Administração Hospitalar e Sistemas de Saúde da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (FGV-EAESP)


A verdade é que usamos de forma errada os termos TI (Tecnologia de Informação) e SI (Sistemas de Informação). Às vezes dizemos TI pensando em todos os recursos ligados à tecnologia, como pessoas e cultura organizacional. Em outras, falamos que o sistema está fora do ar e estamos nos referindo apenas a computadores desligados. A Tecnologia é uma parte dos Sistemas de Informação, que também incluem Cultura e Gestão.

Sabe-se que a área de Saúde é extremamente conservadora em relação ao uso de TI. Repare que não estou falando de Tecnologia Operacional, como tomógrafos e ressonâncias. Mas sim de prontuários digitais e prescrição eletrônica. Esse conservadorismo é parte da cultura das empresas e do próprio setor. E começa cedo: as faculdades ainda não formam os alunos para esta nova realidade. Mas isso está mudando. Os equipamentos digitais de radiologia, por exemplo, já aproximam até os mais resistentes aos computadores. É comum, ao final de cada curso de Tecnologia de Informação em Saúde que ministro, receber alunos interessados em desenvolver aplicativos e ferramentas que melhorem suas próprias vidas profissionais. 

As organizações de saúde já estão sofrendo com a consumerização: a tendência de os funcionários terem - e trazerem - mais tecnologia do que a empresa pode oferecer. Mas, em um mundo informatizado, também são necessários recursos humanos e financeiros. É fundamental ter estrutura e redundância. Esta semana estava conversando com um amigo, médico, sobre isso. Ele estava reclamando que não era raro o prontuário eletrônico sair do ar no hospital em que trabalha. E me contou que, para ele, é muitas vezes desagradável ter que perguntar ao paciente coisas que ele mesmo deveria saber, se tivesse acesso ao prontuário. Nota-se que aqui não falta tecnologia. Falta investimento. Falta redundância. Faltam planos B.

No Qualihosp deste ano, realizado pela FGV EAESP e pelo GVsaúde, as tendências da atenção à Saúde no século XXI receberam destaque. Muitas delas falavam de tecnologia - ora operacional, ora de informação - e discutiu-se muito sobre o prontuário eletrônico individualizado. Até o Google já tentou, com o GoogleHealth. A ideia era um local em que os usuários-pacientes e prestadores - pudessem inserir dados e consultá-los mediante senhas e autorizações. O princípio é muito bom: se pudermos reunir em um só lugar informações sobre os pacientes, custos de exames repetidos e erros de medicação, preciosos segundos em busca de dados podem ser reduzidos. Realmente é muito bom.

Mas se não conseguimos arrumar nossa própria casa, como queremos arrumar o mundo? Não estou sendo pessimista, apenas realista: os gestores de Saúde precisam investir no Sistema de informação como um todo - Cultura, Gestão e Tecnologia - e não apenas em equipamentos e softwares. As ideias são muito boas e poderão melhorar a assistência "apenas" pela melhoria da qualidade e da disponibilidade da informação. Porém, o esforço de implantá-las vai além da compra de equipamentos. Deve-se pensar em privacidade. Deve-se questionar o que pode acontecer quando falta luz. Ou quando a internet e a rede caem. É necessário se proteger de ataques externos - hackers - ou internos - funcionários e clientes mal intencionados.

Se queremos usar TI pra valer e, consequentemente, depender dela, temos que ser tão eficazes quanto o Google (qual foi a última vez que você o viu fora do ar?). Ele sabe que, se falhar, nós vamos usar o Bing ou o Yahoo!. Esses segundos fora do ar são preciosos e podem significar a perda do cliente. Segundos preciosos e perda do cliente são termos comuns em um Pronto-Socorro também, não são? Pois é... 

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