"Nem Sempre os sinais de perigo são percebidos pela vítima"

Segundo o consultor em Segurança Patrimonial Hospitalar Carlos Faria, a ameaça deve ser reconhecida como algo grave

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Novembro de 2015 Edição do Mês
Carlos Faria

Carlos Faria já foi Gerente de Segurança do Hospital Israelita Albert Einstein e do Hospital 9 de Julho, ambos localizado em São Paulo (SP), e desde 2001 atua como consultor em Segurança Patrimonial Hospitalar, além de ser fundador e sócio da INTELLIGENCIA - Consultoria em Gestão de Riscos.


 

 Carlos Faria já foi Gerente de Segurança do Hospital Israelita Albert Einstein e do Hospital 9 de Julho, ambos localizado em São Paulo (SP), e desde 2001 atua como consultor em Segurança Patrimonial Hospitalar, além de ser fundador e sócio de uma consultoria em Gestão de Riscos. Com Graduação e Pós-Graduação em Planejamento e Gestão de Segurança Empresarial, Faria também tem formação em Analista de Segurança Empresarial pela ABSEG – Associação Brasileira de Profissionais de Segurança.

Além da passagem pela Policia Militar do Estado de São Paulo. Nessa entrevista, ele contribui com o esclarecimento de um assunto que gerou alarde no setor hospitalar no último mês de setembro: a vulnerabilidade a qual está sujeita o profissional de saúde enquanto exerce as suas funções dentro de um hospital ou uma clínica de saúde. De acordo com o consultor, geralmente, as ameaças são desprezadas pela vítima, pois nem sempre os sinais de perigo são percebidos ou levados em consideração, o que só favorece o agressor no sucesso do seu intento.

PH - Como evitar que profissionais de saúde sofram tentativas de homicídio, ou qualquer tipo de violência, dentro de uma instituição de saúde?
Carlos Faria - Uma tentativa de homicídio dificilmente ocorre sem premeditação. Geralmente há uma história que antecede a agressão, composta de motivação e de ameaças que podem ter sido desprezadas pela vítima, o que só favorece o agressor no sucesso do seu intento. Nem sempre os sinais de perigo são percebidos ou levados em consideração. A prevenção para esse tipo de agressão deve ser baseada no reconhecimento da ameaça como algo grave, e não como produto da insatisfação passageira do potencial agressor. Medidas de preservação da integridade física do ameaçado devem ser adotadas, como, por exemplo, a restrição de contato pessoal com o potencial agressor. Se o contato for imprescindível, que seja acompanhado de, ao menos, um agente de segurança. E o registro policial da ameaça precisa ser considerado pelo ameaçado, pois a polícia só pode atuar a partir de uma denúncia formalizada.

PH - Qual é o papel do departamento de segurança do hospital?
Carlos Faria - A Segurança Patrimonial Hospitalar tem como missão principal assegurar a integridade física das pessoas contra delitos e acidentes. Como missão secundária, a proteção de ativos da organização. O caráter do profissional desse departamento é essencialmente preventivo, mas ele deve estar apto a realizar intervenções, por vezes, com o uso moderado da força, quando não houver outra forma de se cumprir sua missão. As atividades devem estar alinhadas com as diretrizes da instituição e pautadas na legislação especifica dessa atividade profissional.

PH - Quais tecnologias de segurança podem ser utilizadas dentro do hospital?
Carlos Faria - A indústria privada de segurança dispõe de variadas soluções tecnológicas para o gerenciamento de riscos negativos. Sem dúvida os sistemas de vídeo vigilância, baseados em câmeras de CFTV (circuito fechado de televisão), constituem a ferramenta operacional mais importante, desde que implantada com base em projeto técnico e um plano de operação para o propósito a que se destina. Infelizmente, esses sistemas são adquiridos pelas organizações muito mais pelos atributos tecnológicos do que por sua eficiência tática.

PH - Qual é a real necessidade dos hospitais atualmente?
Carlos Faria - A implantação de sistemas informatizados de controle de acesso físico, ou seja, barreiras físicas de controle de entrada e saída de pessoas e veículos. Novamente enfatizo a necessidade de um projeto técnico e um plano de operação do sistema, principalmente quanto aos seus usuários. Em algumas áreas críticas do hospital é possível o emprego de sistemas de RFID (Radio Frequency Identifi cation) para proteção de ativos, materiais e até medicamentos de alto custo. Alarmes perimetrais, para o sensoriamento de muros e grades; comunicação de emergência (botão de pânico silencioso) e sensores infravermelhos para ambientes interno e externo, são outros sistemas tecnológicos empregáveis em ambientes hospitalares. Por fim, e de enorme importância, estão o sistemas de detecção e alarme de incêndio e de radiocomunicação para a equipe de segurança.

PH - Como o hospital deve ser estruturado/equipado para evitar situações de riscos?
Carlos Faria - Não há outra forma que não seja pelo Planejamento. Primeiramente, deve haver uma análise de riscos muito bem elaborada, pois essa é a fundamentação para todas as demais medidas de gerenciamento de riscos e a definição de uma Política de Segurança, de maneira que não haja dúvidas sobre como a organização deve lidar quando o incidente ocorrer. Um projeto técnico de aplicação e especificação de recursos humanos, tecnológicos e materiais. E, finalmente, um Plano de Gerenciamento de Riscos, que é o manual de gestão do serviço de segurança, alinhado aos programas de acreditação do hospital e mensurado por indicadores de desempenho.

PH - Quais sistemas de controle de acesso são autorizados para o uso em hospitais?
Carlos Faria - Existem detectores de metal em formato de porta e do tipo portátil. Entretanto, em ambos os casos, assim como vemos diariamente em agências bancárias, aeroportos e presídios, é um processo que ainda gera conflitos e lentidão do fluxo. Existem também escâneres que funcionam de forma semelhante ao raio X, cujo custo é elevadíssimo e ainda não solucionou a questão da privacidade, uma vez que tal dispositivo desnuda a pessoa que por ele passa. Não vejo o emprego desses dispositivos em hospitais como algo viável, pois os conflitos que seriam gerados inviabilizariam a sua utilização. Insisto que a melhor medida ainda é a observação do comportamento do potencial agressor, buscando a previsibilidade da sua intenção antes de se transformar em ato criminoso.

PH - Como o departamento de segurança do hospital deve orientar os funcionários a agirem em uma situação de risco?
Carlos Faria - O ideal seria se, primeiramente, dirigentes e gestores de hospitais admitissem que existem riscos de violência contra a integridade física de seus colaboradores, pois a maioria ainda acredita que esse pensamento é exagerado. Uma vez reconhecida essa particularidade do trabalho assistencial, cabe à organização estabelecer um Programa de Prevenção à Violência no Local de Trabalho, que já existe em hospitais norte-americanos há décadas. O programa define as linhas de atuação preventiva e reativa a agressões, capacitando os colaboradores a identificarem precocemente manifestações que indicam potencial para agressão e a relatarem tais episódios aos responsáveis, que por sua vez deverão adotar os protocolos estabelecidos para cada caso. Um programa como esse certamente evitaria muitas agressões, afastamentos médicos, despesas com tratamentos psicológicos e até indenizações financeiras.

PH - Como secretárias e recepcionistas devem ser orientadas a agir quando um paciente está agressivo?
Carlos Faria - Devem manter uma postura serena e profissional e comunicar imediatamente o responsável pela segurança por meio de um código estabelecido para situações de risco de agressão, evitando que o paciente perceba esse pedido de ajuda. O profissional de segurança precisa ser muito habilidoso para lidar com a ameaça, de modo a não constranger o paciente. Caso o nervosismo evolua para uma agressão física, então se faz necessário o uso discreto, e sempre moderado, dos meios de que se dispõe. A orientação geral é nunca desprezar uma ameaça, uma agressão verbal ou uma manifestação de discriminação e desrespeito. Tudo deve ser relatado e tratado.

PH - Caso um atentado aconteça, qual é o procedimento adequado a ser seguido?
Carlos Faria - Duas providencias simultâneas: socorrer a vítima e acionar a polícia militar. 

PH - O que pode acontecer com quem se negar a prestar atendimento ao agressor?
Carlos Faria - Aquele que sofre violência dentro dos limites físicos do hospital deve ser atendido dentro do hospital, independentemente de se tratar de agressor ou agredido, sob risco de enquadramento no crime e omissão de socorro. No entanto, acidentes que acontecem nas proximidades do hospital, por exemplo, na avenida em frente ao prédio, são de competência do SAMU e do Corpo de Bombeiros. Porém, em todo caso, é preciso cautela na avaliação.

PH - Quais são os casos mais comuns de violência em hospitais?
Carlos Faria - Praticamente todos os tipos de violência contra a integridade física das pessoas ocorrem em hospitais, desde agressões verbais até estupro de pacientes e homicídios. As agressões em geral derivam da demora no atendimento, mesmo nos hospitais particulares. Começam com reclamações e rapidamente evoluem para agressão verbal e, não raro, para agressões físicas contra a equipe assistencial. Casos de óbito, por vezes, suscitam nos familiares e amigos uma revolta que pode levar a casos de agressão física. Em menor volume estão os casos as brigas familiares que terminam em agressões mútuas. É importante lembrar que também há casos de agressão cometida por pacientes com distúrbios psiquiátricos, e que não estão relacionadas com violência gratuita ou ato criminoso deliberado. Para esses casos, equipes assistenciais capacitadas e dotadas de recursos materiais adequados para a contenção do paciente em surto psicótico são a melhor, e talvez a única forma, de controlar esse risco. Mesmo assim é importante presente a previsibilidade do ato violento, tanto com base no histórico (prontuário ou narrativa de acompanhantes) do doente quanto pelo comportamento que antecede a agressão.

Segurança Patrimonial
Os manuais de acreditação hospitalar da ONA - Organização Nacional de Acreditação e da Joint Comission International possuem capítulos dedicados à gestão de segurança em ambientes hospitalares. O planejamento formal e a estruturação de um serviço de segurança patrimonial hospitalar são itens de verificação nas auditorias de ambas as instituições certifi cadoras.
 

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